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| Imagem editada via Estadão e Google Imagens. |
O assunto adultização ainda está dando o que falar e uma das questões constantemente levantadas é se uma criança pode trabalhar como ator e atriz mirim nas televisões, podem participar de campanhas publicitárias, por que, então, elas não podem criar conteúdo para o público infantil?
A questão primordial aqui é que quando a criança sai da casa dela e vai para um estúdio, seja de fotografias, seja de filmagens, ela cumpre um cronograma de trabalho e depois ela volta para a casa. Guarde essa informação: ela volta para a casa dela, com o direito à sua privacidade. No estúdio de fotos e filmagens, ela é uma modelo, uma persona a parte, que foi maquiada, vestida, estava em um cenário, em um ambiente todo tratado para bater fotos com uma finalidade; quando ela atua, o personagem tem um nome fictício, ela está representando a história de outro personagem e não retratando a sua própria vida. Aquela persona criada para aquelas fotos ou filmagens deixa de existir quando o trabalho acaba.
Já os criadores mirins, ou conteúdo de família ou até mesmo os conteúdos de maternidade - que eu tenho pavor, pontuo, detesto conteúdo de maternidade, acho pavoroso a mãe ficar falando o quanto a maternidade é ruim e expondo as situações envolvendo o filho - tem a sua vida invadida e sem poder de escolha. Os pais uma hora decidem que vão expor a intimidade das crianças, suas rotinas, seu quarto, sua privacidade, sua saúde, e aí essa criança fica sem um lar. Entenda, não é que ela não tenha casa, ela não tem um lar. Um lugar para se recolher e ficar a vontade, porque tudo passa a ser registrado para fins comerciais: ganhar dinheiro nas redes sociais.
Já retratei aqui no blog sobre a "Exploração Infantil nas Redes Sociais", em que trouxe, inclusive, o chocante caso da YouTuber de maternidade e conteúdo familiar Ruby Franke. O caso chocou os internautas, porque a Ruby, que fez fama explorando seus 8 filhos, chegou ao ponto de manter em cárcere privado, amarrados e sem água e nem comida os seus dois caçulas. O caso veio à tona depois de o menino ter conseguido fugir e ter ido até à casa do vizinho pedindo água e comida em condições sub-humanas e marca de amarração nos punhos e tornozelos. Ruby se vangloriava de deixar as crianças sem comida e dormindo no chão como forma de punição por qualquer coisa que ela considerasse mal comportamento, como, por exemplo, a criança esquecer de lanche para escola ou demorar a atender o chamado da controladora mãe. Os mais velhos, assim que completaram a maio idade, saíram de casa, restou aos mais novos ficarem vulneráveis àquela figura que deveria lhes acolher, mas era o pior do algoz para uma criança. Estou resumindo o caso aqui, mas ele é verdadeiramente chocante! O áudio do vizinho chamando a polícia e segurando o choro para não deixar a criança ainda mais nervosa é de partir o coração.
A criança cujos pais decidiram que vão explorar a sua imagem, possuem as suas escolhas arrancadas: e se ela não quiser criar conteúdo? Ela pode ter gostado no início, mas depois deixou de gostar? Ela tem o poder de dizer "eu me demito"? Sabemos que não.
No vídeo do Felca, ele chegou a citar o caso do canal "Bel para meninas". O caso veio à tona há anos atrás quando a Bel, que agora é maior de idade, tinha um dos maiores canais de criadores infantis do YouTube. Os espectadores começaram a reparar que a Bel tinha umas expressões assustadas quando a mãe estava filmando, típico de criança que está com medo de apanhar. Em um dos vídeos citados, a Bel queria usar um vestido, mas a mãe fez uma enquete com o público que escolheu o outro vestido e, por conta disso, Bel não pode usar a roupa que queria, mas a roupa que escolheram para ela. A pobre menina não podia sequer escolher a roupa que queria usar. Houveram outros casos de brincadeiras extremamente sem graça envolvendo os pais às quais a menina ficava submetida à humilhações, uma vez que ela, na condição de criança, não podia simplesmente se ofender e ir embora. Vai embora para onde? Se a casa dela, o quarto dela é o estúdio? Vai receber acolhimento de quem? Se quem está cometendo os abusos são os próprios pais.
O caso da Bel é um pouco mais complexo, porque ela acabou de fazer 18 anos e talvez ainda não compreenda o choque do público com relação aos conteúdos. Afinal, Bel estava interagindo com a família, que pode comprar casa e carros com o sucesso da primogênita. Na cabeça de Bel, ela estava sendo uma heroína para sua família, só que nós, adultos, sabemos que essa não é uma responsabilidade da criança. São os pais que devem providenciar melhores condições para as crianças e não o oposto.
Talvez um dia a Bel entenda o que nós estávamos falando. O problema com a exposição feita pelo Felca ao escolher aleatoriamente o canal da Bel entre tantos outros e colocá-lo na edição junto com um vídeo que expunha o caso do Hytalo Santos, causou transtornos para a jovem moça que acabou de adentrar a maioridade. Primeiro ponto que o conteúdo dela nunca foi adultizado, pelo contrário! Algumas das críticas do público da Bel era justamente o comportamento infantilizado de uma moça que estava entrando na adolescência mas mantinha o mesmo comportamento de quando era criança. Outra questão é que não cabia a ninguém tirar a Bel da caixa que ela não percebia que estava, pois, ao fazer isso, nos tornamos aquilo que criticamos e apenas se abusamos do caso dela para provar o nosso ponto de vista, o que não é justo. O canal da Bel foi removido pelo YouTube e a Bel que passou a vida criando conteúdo para meninas, agora se vê sem rumo. Infelizmente, pessoas mal intencionadas alegam que ela está com medo de trabalhar de carteira assinada, mas, é necessário entender, que ela passou a vida criando conteúdo, era o que ela sabia fazer e isso foi tirado dela. Aliás, muito se engana que criar conteúdo não é trabalho. É trabalho sim e um dos piores, pois, como eu disse, em se tratando de Redes Sociais, se explora com certa frequência a nossa vida e o nosso espaço pessoal. Os vídeos da Bel chorando são perfeitamente compreensíveis. Não tomaram atitudes antes, as Redes Sociais permitiram que os pais dessas crianças explorassem suas vidas, privacidades e histórias, e agora que eles alcançam a maior idade e podem criar algo para si, isso é tomado. Ou seja, a vez deles nunca chegou! Só puderam aproveitar dos frutos do trabalho feito aqueles que exploraram, não o explorado.
As consequências geradas em crianças que foram expostas e exploradas por suas próprias famílias já tem se tornado tema nas Redes Sociais, com essas próprias crianças, agora adultas, expondo a condição a que estavam submetidas para que conteúdos fossem gerados em cima de sua imagem. De alguns não se tem notícia, pois, alcançando a emancipação, eles decidiram não ter mais Redes Sociais e não se exporem mais. Certamente, ainda haverá estudos e casos sobre como o efeito da exposição indiscriminada e sem consentimento dessas crianças afetou o futuro delas.
Isso não é novidade no mundo do entretenimento. Uma Drew Barrymore que relata que já estava consumindo bebidas alcoólicas dados pela própria mãe quando ainda era criança, e a briga judicial dos pais de Macaulay Culkin nos mostra os efeitos devastadores da superexposição infantil.
Aqui no Brasil, para uma criança fazer trabalhos artísticos, é necessário ação e permissão judicial para se avaliar se isso não irá afetar desde a sua vida escolar, até a sua vida psicológica. Mas a grande questão é como fazer quando quem explora são os próprios pais e responsáveis que deviriam ser os guardiões?
É nessas horas que se compreende a importância da lei e justiça reguladora. Porque, como estamos vendo, se formos deixar essa decisão para certos adultos, essas crianças ficariam completamente desamparadas e é dever de toda a sociedade zelar por todas as crianças. Como diz o Art. 18 da Lei 8069:
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Então, sim! Vamos nos meter sim!
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